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No Tempo Em Que Os Anjos Falavam

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No Tempo Em Que Os Anjos Falavam

28
Mai20

CAFÉ IDIOTA

Eu.

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É noite. Está calor. Na rua, no quarto. O meu receio à entrada de bicharocos impede-me de abrir a janela para refrescar o ambiente, mas sei que lá fora a noite, mais do que quente, está linda: estrelas num céu sem nuvens, as folhas das árvores nem se movem, oiço alguns miúdos a conversar sentados nos bancos de cimento e sei, sem precisar de ver, que os seus cães estão deitados a seu lado na relva. Oiço também cigarras ao desafio e um ou outro melro juntam-se à cantoria. As noites quentes têm um cheiro próprio, a campo, a terra, a madeira seca, a relva pisada. A emoções. Penso agora na imensidão da noite, do mundo, do universo. E na enormidade de disparates que tenho feito vida fora, na infinidade de sonhos que serão sempre só fantasias. Para evitar uma possível neura, bebo, conformada, um café.
Eu e o café fomos apresentados um ao outro, estava eu a trabalhar numa loja de rua, ainda no tempo do escudo. Lembro-me de estar de pé ao balcão de uma pastelaria pequena, quente, barulhenta, cheia de clientes. Uma empregada em câmara (muito) rápida perguntou-me o que eu desejava, e eu, com ar de idiota, mais por ter o meu colega de então ali ao meu lado, respondi com ar muito experiente e ainda mais idiota que o costume (finalmente ia provar café!):
- Um café, por favor! Longo, se faz favor!
Ele chega e a minha idiotice revela-se em todo o seu esplendor! Primeiro, desconfiada, olho para dentro da chávena e não vejo nada! Ponho-me em bicos de pés, olho melhor, a cara espantada quase dentro da chávena, e sim, lá está ele, o famoso café, lá bem no fundo, pequenino e tímido, meio escondido de mim. " É só isto?" - Penso.
Imitando o meu colega, que nem desconfia que é o primeiro café que bebo em toda a minha vida, pego a chávena e dou o meu primeiro sorvo. Não um golinho! Eu mais parecia um camelo desnorteado e alucinado a beber água após uma tremenda travessia no deserto! Resultado, aqui a idiota, não sabendo que a bebida era tão quente, queimou-se a ponto de ficar com os olhos a lacrimejar. Nesta fase, e respondendo ao meu colega, disse-lhe que os meus olhos chorosos eram resultado da alergia. "- Sim, eu tinha renite alérgica!". E funguei para exemplificar.
Depois, já conseguindo respirar mais calmamente, e com a língua feita cortiça, mexi e remexi sem parar o café. Retorquindo novamente ao companheiro de ocasião, e não querendo admitir que eu apenas pretendia que o meu café arrefecesse, disse-lhe que era para o açúcar não ficar no fundo da chávena.
" - Qual açúcar? " - perguntou ele. “- Ainda nem abriste o pacote!".
Enfim, lá paguei o café (era em escudos, mas lembro-me de achar muito dinheiro para tão pouco produto e para ter sido premiada com um bónus em forma de língua de cortiça) e voltei ao trabalho. Perguntou-me a minha chefe se o café era bom. "Muito bom sim senhora!" respondi eu com a papilas gustativas parecendo agora esferovite. Passei a manhã a mirar-me ao espelho para ter a certeza que a minha língua não tinha criado bolhas.
Este palavreado todo para dizer que hoje em dia não passo sem café! Adoro, somos amigos inseparáveis, nos bons e menos bons momentos do dia. Ou da noite, duma escuridão como esta, cálida, com as luzes lá ao longe a piscarem, as traças a voarem perto dos candeeiros de rua, os miúdos ainda a conversarem e os seus cães por perto, e eu no meu quarto quente. Já fiz as minhas orações pela proteção da minha família, já bebi o meu café e já me mentalizei que estou bem assim, eu e eu, fazendo companhia a mim mesma, sozinha na noite abafada, mas com a alma carregada de fé e o coração pleno de sonhos. Bem mais cheio que a chávena de café naquele dia já tão longe...

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