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No Tempo Em Que Os Anjos Falavam

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No Tempo Em Que Os Anjos Falavam

11
Jul20

É COMO TEM DE SER

Sandra

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As nuvens passam rápido, arrastadas por um vento furioso, que parece rugir por entre as árvores. Não me atrevo a abrir a janela, pois sei que lá fora está frio e eu acabei de sair do banho. Olho, sem ver, a rua. Toca aquela música que tanto gosto e faz-me lembrar de ti. Imagino-te no conforto tranquilo do teu lar, nesse Guincho tão intenso como tu, cheio de histórias e memórias, que é todo só teu. Deves estar neste momento vagueando pelas tuas ideias, entre cigarrilhas, o teu gin e o teu iPhone, indiferente a que lá fora sopre um furioso vento. Sei que o calor que és tu a ti te basta.

Eu queria calor. Não era preciso ser da luz do sol nem da minha manta de lã aos quadrados. Queria aquecer-me na tua alma, nas tuas divagações, observações mordazes e interrogações. A tua alma tão humanamente linda e irónica. Enfim, as coisas são como têm que ser e, não o podendo fazer de outra forma, aqueço-me com um café. Toca agora uma música que nunca ouvi antes. Não é má de todo e deixo-me embalar pela sua cadência. Podia dançá-la contigo.

A música acaba e entro naquele estado de "não me apetece fazer mais nada hoje". Espreito à janela onde duas mulheres, carregando um monte de sacos, estão a falar há horas. Se calhar o vento está assim tão furioso por causa das coisas que, incrédulo, ouve das suas bocas! Dizem que quando o vento sopra com exagerada força é sinal de muito calor nos dias seguintes. Vou começar a controlar se assim é!
As senhoras faladoras olham na direção da minha janela exatamente no momento em que deslizo as cortinas. Caramba, que radar! Decido deixar as mulheres a opinar as vidas alheias em paz e vou deitar-me no sofá. Ligo a televisão para assistir ao programa de entretenimento da tarde, tapo-me com a manta e espero serena pelo sono. Pode ser que assim não pense tanto em ti e não fique a imaginar o que poderia ter sido.

Nota: Não tenho nada contra estas e outras "mulheres faladoras". Eu própria falo um pouco demais, embora eu não tenha culpas no cartório. Questões de ADN. São os meus genes ainda mais femininos e tagarelas do que eu. Mas vamos ao principal: contra as ditas senhoras, nada! Até fiquei com pena delas, coitadas, a sério! Já não eram novas e ali de pé há tanto tempo, a carregar os seus sacos tão pesados e ainda por cima com aquele vento tão forte a empurrá-las! Da próxima desço à praceta para lhes emprestar dois dos meus banquinhos de cozinha...

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