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No Tempo Em Que Os Anjos Falavam

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No Tempo Em Que Os Anjos Falavam

07
Jul20

MOMENTO

Sandra

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Todos nós temos aquela hora do dia que nos é mais querida. Aquele momento que, pelas suas características peculiares, nos permite abstrair de tudo o resto, nos liberta e serena, quando tudo o que nos rodeia parece mais encantador.

O "meu" momento é o crepúsculo. Nessa hora singular gosto de apreciar a partida da tarde e saudar a chegada da noite. E é o que faço hoje: deixo-me ficar debruçada à janela perdida nesse evento mágico. Relembro um ou outro pormenor do que fiz desde que acordei, tomo algumas notas mentais para organizar o dia seguinte e, como um capítulo que termina para dar início a outro, algo muda.

É um momento de mistério e transformação. Nesta altura só conta o aqui e o agora. Não há vento, tudo parece parado, até o ar está estagnado e quente. No lusco-fusco, o céu brinda-me com tonalidades fantásticas. As árvores transformam-se em negras silhuetas contrastando com um céu que aos poucos escurece também. Vejo bandos de pardais barulhentos a esconderem-se à pressa entre a folhagem dos ramos que parecem igualmente adormecer. No céu surgem estrelas tímidas, como que envergonhadas do seu brilho ainda ténue. Ao longe, as luzes da cidade acendem-se aos poucos e os prédios ganham cor. Carros passam depressa numa estrada distante, consigo ver os seus faróis ligados. Na praceta em frente da minha janela noto que os candeeiros de rua já estão acesos. À volta deles voam traças. A noite chega depressa e silenciosa. A lua quase cheia parece maior e mais brilhante que o costume. Oiço algures um melro e, ao longe, um cão ladra. Está calor e alguns miúdos ainda jogam à bola no campo seco aqui ao lado. Riem despreocupados e falam alto.

Saboreio sem pressa a minha bebida fresca e olho para longe: do lado do mar, o farol sempre incansável na sua tarefa; do outro lado, vivendas ladeadas de terrenos selvagens. E no alto da serra, o Palácio da Pena, todas as noites sempre bem iluminado. Relaxo, sinto em mim toda a serenidade que me cerca. E embrenho-me em recordações... há sempre alguém especial que inevitavelmente será lembrado numa noite assim.

Deixo-o chegar, quero pensar nele. Nunca fomos mais que amigos embora o sentimento disfarçado por nós fosse outro bem diferente. O meu coração bate forte num misto de saudade, arrependimento e comodismo. Juntamente com algumas lembranças vêm as interrogações, um aperto no peito, uma vontade louca de o rever e retomar a nossa história no ponto em que eu a deixei. Quando se dá o "tudo ou nada"!

O bom senso que há em mim emerge subitamente para me lembrar que há coisas tão mais importantes, sendo que a principal é saber que aqueles que amo, que realmente me importam, estão bem. Rezo constantemente a Deus para que sempre os guarde, os proteja e ajude. A fé, por si só, pode não ser o suficiente para conseguir algo mas é um tremendo ponto de partida (e de chegada) e eu creio firmemente no meu Deus.

Olho novamente o céu agora já carregado de estrelas, acabo a minha bebida, inspiro uma última vez o ar quente e seco da rua e despeço-me a custo da noite. O seu silêncio é meu cúmplice, o amante perfeito.

Fecho a janela. Os afazeres esperam-me e o relógio exige que eu não perca tempo. Tenho ainda o jantar para fazer, algumas coisas a arrumar e a telenovela que não quero perder. No entanto, há algo que preciso com uma urgência maior: um duche a meia-luz, demorado, perfumado e relaxante. Tenho um desejo enorme de me fechar os olhos e sentir a água no meu corpo, no meu cabelo. No meio do vapor, que preenche o ambiente e embacia o espelho, sinto-me limpar também a alma, regressar a mim, à minha essência, às minhas convicções e à minha esperança. Em corpo de mulher, o meu coração volta a ser pequenino outra vez.

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