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No Tempo Em Que Os Anjos Falavam

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No Tempo Em Que Os Anjos Falavam

09
Jul20

VISITA INESPERADA

Sandra

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Pela manhã bem cedo, enquanto à janela da cozinha espreitava como estava o tempo, tive a alegria de vislumbrar algo que adoro e não esperava encontrar: andorinhas!
" - Andorinhas em julho?" - pensei, um pouco desconfiada se não seria outra espécie. Mas tendo em conta todas estas alterações climáticas, que são o tema de cada dia, concluí ser possível.

O micro-ondas deu sinal avisando-me que o meu café com leite já estava quente, mas as andorinhas tinham captado por inteiro a minha atenção. Agora sim, já tinha a certeza do que via: andorinhas de facto! Todos os anos, pela primavera, sou brindada com a sua presença, embora este ano já me tivesse interrogado, por várias vezes, onde estariam elas. Ou se voltaria a vê-las. Afinal, há tantas outras espécies cujo número de elementos tem vindo a diminuir! Mas hoje, aqui estavam elas, vestidas de preto, azul escuro e branco, com as suas asas típicas e a cauda inconfundível, passando a alta velocidade em voos rasantes à minha janela. Quase me tocavam a cara, enquanto faziam manobras verdadeiramente dignas de um caça F-16! Tenho a certeza que a indústria aeronáutica aplica, no fabrico dos seus modelos, dados e técnicas resultantes do estudo da vida animal.

Este bando que vejo é grande, as aves majestosas, firmes, determinadas e focadas na sua busca incessante de alimento. Parecem quase agressivas! Como a sua época oficial do engate, do namoro e construção de ninhos já ficou para trás, só podiam estar mesmo à procura de comida para a sua prole: insetos mais distraídos que são capturados em pleno voo. Dizem que as andorinhas não podem aterrar, as suas patas não estão concebidas para tal. Tal como só podem viver em liberdade, pois em cativeiro definham e morrem. Defendem também que estas aves acasalam e nidificam sempre com o mesmo parceiro. Mas, facto cientificamente comprovado, algumas espécies gostam de ocasionais, secretas, breves e deliciosas relações extraconjugais.

Questões sexuais (e sentimentais) à parte, sou sua fã desta espécie de aves, que migrando persegue o calor, andorinhas que me transportam à minha infância e que adoro ver para cá e para lá atarefadas, chiando em tons altos e agudos, indiferentes à minha presença.
Se não fosse o meu café com leite estar a arrefecer, juntamente com o meu corpo recém-saído do quentinho da cama, teria ficado mais tempo à janela. Mas estas minhas amigas vão ficar ainda algum tempo por cá, voando, chiando e petiscando, até que um dia, misteriosamente, desaparecem para dar lugar às folhas de outono, com tons cruzados entre o amarelo, o laranja e o vermelho. (Ai, o outono!).

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